#44 - Hino de Santa Maria Goretti

 Hoje é dia de Santa Maria Goretti, e talvez hoje seja o melhor dia para um desabafo.

Eu sirvo na Paróquia Santa Maria Goretti, a paróquia perto da minha casa, desde criança. Fui Coroinha e Ministro, fiz Crisma e fui catequista de Crisma, dei Curso Bíblico, cantei em banda, medi temperatura em testas, abri portas, fechei portas, vendi velas, anotei nomes de pessoas falecidas que outros queriam lembrar, fiz as exéquias de pessoas falecidas que outros queriam lembrar. Eu ajudei quem precisava e queria ajuda, eu me coloquei pelo outro, eu queimei dedos em carvão em chamas para depois carregar o andor da imagem da padroeira e carreguei pessoa desmaiada enquanto saía do meu próprio buraco - literal! - e enquanto a pessoa não aceitava as bênçãos que recebia.

Uma verdade neste tempo todo é que sempre surgiram pessoas dispostas a insultar. Sempre há a senhora que xinga por eu não ter falado o número que ela queria no bingo (a senhora sabia que eu estava, naquele momento, com 39 de febre por conta de uma infecção?), a pessoa que questiona eu servir todo domingo (sabia que eu estava cobrindo pessoas que pediam substituição?), a menina que luta pra me tirar de uma posição que eu nunca lutei pra ter (ei, ninguém mais queria mas era algo que precisava ser feito). Essas pessoas sempre existiram.

Com o tempo, e por conta do meu serviço, passei a trabalhar também em outras paróquias, e em todas haviam essas pessoas, mas eu sabia que, na minha casa, eu teria sempre refúgio e poderia, se quisesse, ficar quieto, fazer minha oração e comungar com Jesus.

Minha casa não é mais hospitaleira.

Se me coloco pra trabalhar pela segurança de todos em tempos de pandemia, eu sou insultado e quase agredido. Se algo deu errado com outra pessoa e eu estou perto, a culpa é colocada em mim. Se quero só ficar quieto, orar e comungar, a comunhão me é negada.

Pessoas que se dizem cristãs e se dizem irmãs em Cristo, algumas delas munidas de uma bata, se acham superiores. "Quem você pensa que é? Você é um merda, você não é nada". Eu literalmente ouvi isso. Se eu peço para outra Ministra me dar a Comunhão (e agradeço pela pronta atenção), ainda ouço de outra que, se eu não recebi a Comunhão anteriormente, a culpa é minha, por não ser visível.

Eu tenho próximo a 2 metros de altura, mais de 100 quilos, fico debaixo de uma lâmpada diretamente e as vezes visto vermelho. Aprecie a ironia.

A casa continua sendo minha casa, e a minha Santa de devoção sempre terá minha devoção. E eu tenho certeza disso porque, a cada empurrão, insulto e agressão que sofro, sempre há alguém para um abraço e um sorriso (a máscara não esconde se o sorriso nasce no olhar). Todas essas porradas doem e cansam, mas eu tenho a tranquilidade de saber que essas mesmas pessoas não sabem se colocar pelo outro. São pessoas que só querem saber dos cargos, das posições, dos holofotes, dos títulos.

A bata, a veste, o colete que você veste para servir não é uma coroa, é um peso. É o peso de ter a obrigação de servir a Jesus Cristo e fazer jus a Ele, sobre todas as pessoas.

É isto que me acalma diante de todas estas pessoas estúpidas, com cabeças de ovo, olhos de serpente, sorrisos motivacionais ocos e corações pesados: sempre que eu me sinto péssimo com as coisas que fazem, eu peço a Nossa Senhora que me julgue.

Pobres daqueles que ainda não compreenderam que a união garante um crescimento maior que qualquer solidão.


Viva Santa Maria Goretti, anjo de puro amor. Amém.

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